Assassinato de Médium pode ter sido crime passional


Mecânico, ele foi, durante muitos anos, dono de uma oficina em Vila Isabel. Mas Gilberto Arruda gostava mesmo era de consertar, não carburadores de carros (sua especialidade), mas almas aflitas e corpos doentes. Principal médium do Centro Espírita Lar de Frei Luiz, em Jacarepaguá, ele comandava cerca de 400 cirurgias espirituais por mês, mesmo que, para isso, tivesse que abrir mão de alguns prazeres. Nos dias anteriores às operações, Gilberto, amante assumido da boa mesa, fazia uma dieta restrita. Acreditava que o resguardo, que incluía abstinência sexual e de bebidas, facilitava seu trabalho. Dedicado ao que acreditava ser sua missão – curar o próximo – o médium, de 73 anos, tinha se mudado, tempos atrás, para uma casa no terreno do centro espírita. E foi em seu quarto que acabou sendo encontrado assassinado, nesta sexta-feira, num crime que chocou espíritas e famosos. Já estiveram sob seus cuidados personalidades como Milton Nascimento e Elba Ramalho.

O corpo foi encontrado por volta das 8h por Marli, segunda esposa de Gilberto, que dormia em um quarto separado. O médium estava amarrado e tinha sinais de espancamento, principalmente no rosto. Havia muitas manchas de sangue no local, segundo o tenente-coronel Rogério Figueiredo, comandante do 18º BPM (Jacarepaguá). Imagens das câmeras de segurança da instituição foram entregues a investigadores da Divisão de Homicídios (DH), que já começaram a ouvir parentes da vítima e funcionários do Lar Frei Luiz. Além da família do médium, moram no local 26 idosos do asilo mantido pela instituição e dois cuidadores.

Peritos da DH passaram a manhã de hoje recolhendo digitais e objetos no centro espírita. Apesar de policiais informarem que nenhuma hipótese está descartada para o crime, há rumores, entre pessoas que trabalham no centro e preferiram o anonimato, que a morte pode ter motivação passional. O temperamento de Gilberto também deverá é levado em conta na apuração do caso. Embora espiritualizado e voltado para a cura, o médium, segundo amigos, tinha temperamento forte, do tipo que não levava desaforo para casa.

– Gilberto era explosivo. Era uma pessoa de difícil trato, mas também tinha um lado meio brigão – diz o jornalista Ronie Lima, que escreveu livros sobre espiritismo e o Lar de Frei Luiz.

Na véspera da descoberta do assassinato, houve uma reunião com dependentes químicos no centro espírita. O vice-presidente do Lar de Frei Luiz, Nelson Duarte, descartou a hipótese de o assassinato ter sido cometido por alguém que esteve no evento. Ele também disse não acreditar que a morte tenha sido motivada por intolerância religiosa.

– Todos respeitam e conhecem nosso trabalho de caridade. Também não acredito que algum participante da palestra para dependentes químicos tenha feito isso. O médium não trabalhava com o grupo e, além disso, essas pessoas vêm aqui em busca de ajuda e cura para o vício, não fariam uma coisa tão absurda – afirmou Duarte.

Assistente de Gilberto nas cirurgias espirituais, Paulo Abrantes disse que não notou diferença no comportamento do médium nos últimos dias nem sinais de preocupação. Gilberto estava há mais de duas décadas no centro espírita, e descobriu sua mediunidade ainda criança.

– Houve uma época que os pais dele ficaram preocupados, achando que Gilberto estava ficando louco, queriam interná-lo. Ele dizia que via vultos na casa, tinha ataques de pânico. Só depois que encontrou o químico industrial Luiz da Rocha Lima, uma das maiores lideranças espirituais no Brasil, que sua mediunidade foi descoberta – contou Ronie Lima.

Gilberto passou a atrair multidões para suas sessões – havia dias em que o terreno de 13 mil metros quadrados do Lar de Frei Luiz reunia até quatro mil pessoas. O médium realizava dois tipos de cirurgias. Todas as quartas-feiras, dizem os espíritas, ele incorporava o espírito do médico alemão Frederich Von Stein e operava, sem instrumentos cirúrgicos ou cortes, cerca de 30 pessoas, deitadas em macas, lado a lado. Elas relatavam ver fachos de luz durante o processo. A cada 15 dias, aos domingos, Gilberto coordenava as sessões de materialização. Nesses rituais, o espírito de Von Stein tornava-se visível e tangível, segundo espíritas, e ficava ao lado do médium, conhecido também por materializar objetos como pequenas pedras, algumas em formato de coração.

Entre os famosos que Gilberto atendeu está o tenista Gustavo Kuerten. Em 2006, sofrendo de dores nos quadris que o derrubaram do primeiro para o 452º lugar no ranking do esporte, Guga, então com 29 anos, recorreu a um tratamento espiritual no Lar do Frei Luiz. Ele seguiu o procedimento padrão do centro. Primeiramente, ficou mais de uma hora na sala de orações, com 50 pessoas. Depois, foi com um pequeno grupo para uma sala escura, onde fez o tratamento. À revista ”Época”, o tenista afirmou, na ocasião, a melhora: ”Foi minha primeira experiência com o espiritismo. Estou mais calmo e equilibrado”.

Milton Nascimento, Elba Ramalho e Tom Jobim também foram atendidos por Gilberto. A atriz Alcione Mazzeo, que foi voluntária no Centro Espírita Lar de Frei Luiz por 17 anos, disse que viu o médium pela última vez há 15 dias, para tratar um problema no ombro:

– Ele não tinha vida social, sua rotina era se dedicar ao Frei Luiz. Ele me ajudou através de uma cirurgia espiritual. Tive um nódulo no seio e me tratou. Não precisei operar.

O ator Carlos Vereza, que frequenta o Lar Frei Luiz há 27 anos, lembrou que esteve com Gilberto dias antes do crime:

– Todas as quartas-feiras, eu ia na sala dele. Não foi diferente nessa quarta-feira. Nem imaginava que seria a última vez. Conversei apenas com a entidade alemã que ele incorporava, que me recomendou continuar a ler textos espíritas. Ainda não consegui processar o que aconteceu. A situação é absurda. Ele era uma pessoa boa, que só praticava a caridade.

A morte ocorreu na mesma semana em que uma menina de 11 anos foi agredida ao sair de um culto de candomblé na Vila da Penha, coincidência apontada por Carlos Tufvesson, coordenador especial da Secretaria de Diversidade Sexual da Prefeitura:

– Lamentável demais que, numa cidade tão diversa como o Rio, que acolhe todas as crenças, nós vejamos nas últimas semanas tantos atos de intolerância desmedida a ponto de ceifar a vida de pessoas do bem e trazer sofrimento para tantos outros cidadãos e cidadãs. Eu não preciso ser espírita para me indignar com essa situação triste.

O velório de Gilberto aconteceu no último sábado no Lar de Frei Luiz.